quinta-feira, 16 de março de 2017

Entre Explicação e Desculpa


Certa vez escrevi um poema intitulado “Sob Encomenda”. Eu tentava explicar que não sei escrever sem estar inspirado. Tenho que viver o que escrevo, tenho que sentir... A “coisa” tem que sair de dentro de mim. Não sei olhar para algo e escrever... Não sei escrever “de fora, pra fora”. É algo meio difícil de explicar. Não tenho nada contra quem escreve sobre qualquer coisa, a qualquer hora, debaixo de chuva, de sol, primavera, verão ou inverno... Quem é escritor profissional precisa saber e ter estas armas. Mas eu sou é poeta (juro pra vocês que falo esta palavra com uma certa “inquietação”). E, além disso, não sobrevivo de escrita. Escrevo simplesmente por prazer. Apesar de ter uma preocupação enorme com o que escrevo, não tenho tanta “responsabilidade”. Talvez por isso que advenha o prazer.
Deixe-me explicar uma coisa: estou me referindo à poesia. Não acho fácil olhar para alguma coisa, e fazer um poema... Não acho fácil alguém me dar um tema, e eu fazer um poema... Estou falando neste sentido. Outro tipo de texto, tudo bem. Mas na poesia é outra coisa. Parece que ela carrega nossa alma do momento. Digo do momento, porque nós temos vários momentos. E aquele momento em que nós estamos escrevendo, nossa alma deve estar sendo carregada. Talvez nem estejamos vivendo o momento físico ou emocionalmente. Mas é o nosso momento, aquele que nós estamos passando para a escrita. Tenho uma certa “indiferença” com acrósticos, justamente por achar que o acróstico é uma coisa muito “técnica”, muito fria.
Vou dar um exemplo: na década de 80, quando eu vivi os melhores momentos da poesia, depois de algum evento saia aquele bando de poetas curtindo de bar em bar... E quando alguma pessoa pedia que fizéssemos uma poesia para ela, a nossa “válvula de escape” era o acróstico. Perguntávamos o nome da pessoa e, pimba! Tome um acróstico. Então para mim, é uma coisa sem emoção. E o que eu mais curto em escrever é justamente a emoção de começar sem saber no que vai dar. Muitas vezes começo a escrever pensando em uma coisa, e vai dar em outra. Parece que a escrita tem vontade própria. É isso que me agrada.
Tenho visto nas comunidades de poesia, os poetas fazendo poesias em parcerias, mas não entro na brincadeira. Eu não consigo “entrar” na ideia de outra pessoa. Um amigo meu, o poeta Antonio Sanábria, em um dos seus livros colocou um poema para o leitor continuar. A intenção dele é editar um livro com essas parcerias. Quando vi esta ideia, aplaudi, gostei muito. Tentando tornar-me um parceiro (poético) do meu amigo, debrucei-me sobre a poesia tentando continuá-la... Quando eu escrevia alguma coisa, ficava alegre, achando que tinha conseguido. Depois que passava o calor da euforia, ao analisar friamente, via que nada combinava. Após muitas tentativas, desisti de querer completar.  O livro dele está ali, me olhando...
Para completar esta ideia, vou contar um caso que serve para ilustrar bem onde quero chegar com esta história: o meu compadre, o poeta Luiz Nazcimentto, tem uma facilidade enorme para escrever “sob encomenda”. Tem três poemas dele que todo mundo que lê gosta, mas ele não suporta. Ele não os coloca em lugar nenhum, só porque os poemas são “frutos” de desafios. Desafiaram ele, ele escreveu, provou que faz, e fim. Encerrou o caso. Quando alguém questiona porque é que ele não gosta dos poemas, ele diz: “Eles não nasceram de mim, não gosto de poemas feitos assim!”

A.J. Cardiais
10.11.2011
imagem: a.j. cardiais